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Pesquisando os arquivos da residência Acho Imagens, encontrei um conjunto de fotografias de fachadas de casas. Chamou-me a atenção o fato de que, em quase todas, havia plantas em vasos ou canteiros - às vezes mais espaçosos, às vezes bem apertados, mas sempre delimitados por concreto. 

 

Até os 18 anos, vivi numa casa como a dessas fotos, com um quintal quase todo cimentado e dois pequenos canteiros. Era minha mãe quem cuidava deles.

 

Em outro momento da minha vida, tive plantas na varanda de um apartamento. Elas pareciam estar bem, eram viçosas, davam flores. Mas apenas quando me mudei para uma casa e pude colocá-las diretamente no solo de um grande quintal é que entendi o quanto, nos vasos, elas estavam oprimidas: ao ir pra um espaço mais amplo, sem barreiras, elas se desenvolveram, ganharam altura. Uma delas, pra minha surpresa, tornou-se uma grande árvore.  

 

Minha mãe - uma mulher que se casou muito jovem, teve quatro filhos, interrompeu os estudos na adolescência, contava que queria ter sido cantora e tinha saudades do tempo em que, ainda solteira, chegou a ganhar dinheiro com costura - nunca teve a possibilidade de florescer em solo amplo. Assim como muitas outras mulheres adultas com quem convivi.

 

Em DESCANTEIRO, decidi resgatar as plantas-mulheres de seus pequenos canteiros e reintegra-las a um universo natural mais selvagem, amplo e livre. Recortei as fotografias das casas, de estética dura e árida, e repatriei as plantas em imagens de florestas exuberantes, de minha autoria - alargando suas fronteiras, devolvendo a elas a possibilidade de expansão e plenitude.

 

Mantive alguns elementos das fotos originais que, apesar de cobertos por papel vegetal, seguem visíveis - afinal, as marcas de nossas histórias sempre nos acompanharão.

 

Montei também um album com algumas das fotos na íntegra, sem recortes. Assim como nos registros familiares, elas estão acompanhadas de anotações pessoais que relembram os cerceamentos, oras sutis, oras ostensivos, vividos por muitas mulheres.

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